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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Análise do comportamento apaixonado nas cartas de Simão e Teresa, em Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco



Por Cássio José
Graduando em Letras – Português pela UFC 



Por isso, é a morte, eu amo-te e não
                                                                                     temo.
Por isso, é a morte, eu quero-te comigo.
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo. ”

Junqueira Freire.



Daqui a pouco, perderás da vista este mosteiro; correrás milhares de léguas, e não acharás, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga: - A infeliz espera-te noutro mundo, e pede ao Senhor que te resgate.
             [...]
            Que importa morrer, se não podemos jamais ter nesta vida a nossa esperança de há três anos?! Poderias tu com a desesperança e com a vida, Simão? Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escassos benefícios que Deus me conceda; a morte é mais que uma necessidade, é uma misericórdia divina, uma bem-aventurança para mim.   

 [BRANCO, Castelo Camilo. Amor de perdição. São Paulo, Scipione, 1994]


Os trechos de ambos os textos citados acima demonstram desejo pela morte. Um almejo extremamente exagerada por ela como solução ou saída (geralmente certa fuga!) dos problemas amorosos {a morte é mais que uma necessidade, é uma misericórdia divina, uma bem-aventurança para mim}.   

Esta foi uma estratégia usada pelos escritores de literatura na escola literária denominada Romantismo. Usamos esse termo não para denominar um sentimentalismo amoroso dos seres humanos ou algo próximo disso; mas antes, como estética literária comumente vista nessa corrente literária portuguesa em meados do século XIX.

A Obra Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco é um exemplo claro disso. Este, considerado o principal representante do ultrarromantismo português, teve uma vida conturbada: a orfandade na infância, o breve casamento na adolescência, o curso de Medicina abandonado em favor da boemia um longo relacionamento adúltero que acabou levando-o à prisão (onde, interno por pouco mais de um ano, produziu o consagrado romance Amor de Perdição). Várias relações amorosas e escândalos o marcaram.

A vida de Camilo, tão dramática, tão cheia de episódios excepcionais, poderia ser confundida com uma de suas histórias que ele escreveu.    

Este livro, escrito nas estadas de Camilo na prisão, atinge o maior grau de dramaticidade entre as novelas passionais do escritor. Traz consigo as características próprias do Romantismo, sobretudo na segunda geração romântica portuguesa, a ideia positiva da morte e o individualismo ou egocentrismo.

A idealização do amor, como sentimento essencial, mola poderosa da vida e idealização da mulher, esta é vista como uma deusa, cultuada, tem-se o valor e preservação da virgindade, encontra-se nos trâmites desse romance. 

Trazendo um enredo entre Simão Botelho e Teresa Albuquerque, duas almas extremamente apaixonadas, Amor de perdição, de Camilo, é uma verdadeira cópia portuguesa de Romeu e Julieta, de William Shakespeare, tendo um fim trágico: a morte de ambos os apaixonados. Suas famílias são rivais e procuram impedir-lhes de desfrutar desse amor, fazendo de tudo para que eles se separem.

O que nos chama a atenção no romance são os escritos de cartas de ambos os personagens, uma maneira de romper os limites das dificuldades amorosas e lutar até a morte pelo amor sonhado, muito embora fantasiando o invisível ou almejando o impossível.

Segundo a literatura, “falar de Romantismo, é falar do movimento literário que instaura pela primeira vez uma subjetividade extrema, até então jamais vista em toda a arte ocidental”. É o que vemos em Amor de perdição.

AS CARTAS

Observemos o seguinte trecho da primeira carta trocada entre os dois amorosos:

“Meus pai diz que me vai encerrar num convento por tua causa. Sofrerei tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-ás no convento ou no Céu, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá Irã dar as minhas cartas; e na primeira te darei em que nome hás de responder à tua pobre Tereza”.  

Observa-se no trecho da carta acima uma promessa de fidelidade acima de tudo. Mesmo que seja de uma maneira sofredora e à distância, passando pela solidão, sofrimento e renúncia, e até mesmo estando em viva ou morta (convento, céu), sonha-se com um amor inseparável, perfeito e imaculado.  

Poderemos dizer que as cartas cumprem as funções seguintes:
  Servir de elo entre os dois amorosos;
  Informar o destinatário sobre os acontecimentos;
  Comunicar decisões tomadas;
  Persuadir o destinatário a adotar determinadas atitudes;
  Autojustificar os atos do destinador;
  Exprimir sentimentos.

Vamos apresentar a localização e a síntese do conteúdo de cada carta para que percebamos sua situação dentro da economia da narrativa. Não deverá também deixar de distinguir os recursos que fazem da prosa das cartas prosa poética, em contraste com a prosa narrativa.

Vejamos a análise das cartas trocadas entre Tereza e Simão para a nossa reflexão:

 1.ª carta: comunicação da hipótese de Teresa vir a ser encerrada no convento; promessa de fidelidade.

2.ª carta: informação de que Teresa já sabe o que se passou com os criados de Baltasar (emboscada); pedido de confiança nela.
3.ª carta: relata a sua entrada no convento, mostra-se firme e faz um apelo ao amor de Simão.
4.ª carta: apelo à fidelidade do amor e à fuga do convento.
5.ª carta: pede a Simão que vá para Coimbra e desabafa sobre a corrupção que reina no convento.
6.ª carta: pede a Simão que não vá para Coimbra, com receio de ser transferida para outro convento mais rigoroso.  
7.ª carta: escreve esta carta como se fosse à última da sua vida, comunica o desejo de matar Baltasar e despede-se de Teresa.
8.ª carta: informa que está à par dos acontecimentos, fala da morte como o fim terreno mas também como a possibilidade de se encontrarem no Céu.
9.ª carta: Simão informa Teresa de que há possibilidade de salvação, pois não vai ser enforcado. Alude ao destino que os une e pede-lhe para não morrer.
10.ª carta: monólogo em que Simão se auto-analisa. Aumenta a qualidade da prosa poética.
11.ª carta: Teresa pede a Simão que aceite os dez anos de cadeia.

12.ª carta: Simão informa Teresa de que aceita o degredo.
13.ª carta: Teresa informa Simão de que vai morrer e pede-lhe perdão. Despede- se dele até ao Céu.
14.ª carta: escrita nos últimos momentos da vida, Teresa recorda os projetos passados. Alude ao fatal destino e confessa que já o vê no Céu.

A distância que sempre separou Simão e Teresa levou à invenção de uma forma de comunicação entre os dois, essas cartas. O narrador resolveu o problema, mas aproveitou esta presença para lhes conferir funções diversas. E aí está como um registro discursivo pode alcançar relevância funcional. As cartas são de extensão diferente, não são regulares e o seu discurso não é sempre do mesmo tom.
            
              Elas demonstram através da escrita um sentimento próprio do Romantismo,
usado pelos personagens da Obra aqui referenciada no decorrer do enredo literário. Nada mais é do que os registros do que os corações de ambos querem para as suas vidas. Um amor que ultrapassa sofrimentos e usa a renúncia como arma poderosa para fortalecer os desejos mais ardentes do coração humano: o amor. Uma luta contra si mesmo e contras as atrocidades externas para conservar o mais puro desejo da alma, muito embora haja obstáculos sentimentais. 

            É interessante destacar aqui também, que encontramos nesse romance um exemplo de um verdadeiro grito literário que rompeu com a maneira de pensar e escrever dos estilos literários existentes da época.   



Referências

ABAURRE, Maria Luiza; PONTARA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português: Língua, Literatura e Produção de texto. São Paulo: Moderna, 2004.

CAMPEDELLI, Samira Yousseff; SOUZA, Jésus Barbosa. Literaturas brasileira e portuguesa: teoria e texto. São Paulo: Saraiva, 2000.

PELACHIN, Márcia Maisa; PEREIRA, Helena Bonito. Português: na trama do texto. São Paulo: FTD, 2004.

Internet:

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